CARRINHO AZUL

Me lembro de muitos natais naquele pequeno sítio perdido no Cabuçú em Guarulhos. Sítio esse dos meus avós onde grande parte de nossa família se reunia em datas especiais e também nos fins de semana.
Tenho muitas lembranças e conheço cada centímetro, cada saliência, cada barranco de forma que poderia até criar uma maquete detalhada daquela geografia acidentada.  As noites de natal eram, naquela época, uma mistura de ansiedade, expectativa, e, porque não dizer, de coragem para enfrentar o temível e amado papai noel. Amado por trazer os presentes simples que sempre nos alegravam; temível pela possibilidade de nos levar no saco caso não tivéssemos nos comportado durante o ano. Meus avós haviam costurado uma máscara com couro de coelho e acrescentado pelos imitando barba numa obra que causava horror tamanha fisionomia grotesca.  Aquele que se dispunha a usá-la, ainda calçava botas "sete-léguas" e o restante da indumentária que sempre apavorava as crianças na sua chegada. As luzes eram fracas e quando iniciávamos a canção "Noite Feliz", prólogo para a entrada daquela figura, os corações batiam mais forte.

Dos inúmeros presentes que ganhei durante os anos, ficou apenas um na lembrança de um carrinho azul de plástico com capota branca. De início os presentes eram sempre bem simples devido à época e a situação dos familiares. Com o tempo houve melhoras. Estou me recordando do início dos anos 70 obviamente.

Mas ainda guardo a cena do velhinho esticando o braço e me entregando aquele carrinho azul.

Depois vinha o ano novo e lá estávamos novamente todos reunidos. Passávamos a virada comemorando e jogando "loto" um bingo com cartelas onde todos apostavam moedas. A gritaria era geral, mas nos divertíamos muito.

O sítio era bem simples. Meus avós criavam codornas em compridas instalações. Além disso, ainda cuidavam de outros pequenos animais. A energia era por gerador sendo, mais tarde substituída por fiação que também era constantemente furtada para desespero de meu avô.

Os anos se passaram rapidamente. Os encontros familiares foram escasseando e cada vez com menos integrantes. Por fim, depois que a "civilização" foi chegando mais próxima e com ela os roubos e assaltos, obrigaram meus avós a se mudarem em definitivo.

Algumas décadas se passaram e alguns anos atrás ainda pudemos visitar o lugar. Era muito difícil localizar cada construção já que todas foram demolidas. Mas eu consegui graças as minhas lembranças metódicas me orientar pela sinuosidade da geografia e no meio daquela imensa mata que se formou, consegui localizar o ponto exato daquela casa.

A natureza já havia se transformado radicalmente sendo que recuperou todo o espaço dentro e ao redor da casa.

Na pequena sala onde jogávamos loto, uma enorme árvore se instalou. Montanhas de tijolos derrubados definiam as paredes que ainda ficaram aqui e ali.

As pequenas e bem cuidadas sebes se transformaram em enormes arbustos. Tudo se modificou enfim.

Ao longe, onde antes se avistavam enormes pastos e bosques, agora estão tomados por casas de periferia.
O pequeno rio que corria mais abaixo e onde podia ainda se ver os cardumes de lambaris a subir a correnteza devido a cristanilidade da água, agora como todos os córregos onde a "civilização" chega, enegreceu.

A enorme pedreira que rugia os morros com seus explosivos eventuais, se transformou num gigantesco aterro sanitário.  Meus recantos onde gostava de ficar só e filosofar. foram desmatados. Os espaços mais abertos já estão cobertos pela vegetação. Tudo mudou completamente.

A mudança é necessária.  Nada é eterno.  Talvez somente as lembranças daquele tempo e lugar fiquem para sempre. Mesmo que as eras se passem. As diversas encarnações aconteçam. Sempre levaremos isso com a gente. Faz parte daquilo que aconteceu.  Principalmente quando são lembranças de infância e adolescência. Essas são definitivas.

Muitos integrantes daquelas reuniões familiares já não se encontram mais neste plano. Outros familiares vieram e se integraram ao núcleo daqueles tempos. Mas nenhum deles terá essas lembranças. Não dá para lhes transmitir o que sentíamos, mas somente o que vivemos naqueles tempos felizes.

Entre finais dos anos 60, até meados dos anos 80..

...faz muito tempo!


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