UMA CANÇÃO PARA UM TEMPO, UM MOMENTO...E MINHA MÃE

Há mais de 40 anos atrás, o Brasil enfrentou uma grande epidemia de meningite. Milhares de crianças morreram. O troço parecia fora de controle e me lembro de algumas pessoas carregando pequenos sachês junto ao corpo para uma vã tentativa de se livrar do surto.
Em determinado tempo, as aulas foram suspensas e os alunos obtiveram umas férias antecipadas para evitar mais contágios.
Meus pais então, decidiram também viajar para que eu e meu irmão pudéssemos nos afastar até dos próprios vizinhos já que naquele tempo, brincávamos sempre na rua. Não havia a tecnologia de hoje que afasta a convivência nas ruas. Para as crianças daquele tempo o passatempo era simplesmente brincar jogando bola, empinando pipas, bolinha de gude, carrinhos de rolemã, e outras brincadeiras que hoje me fazem rir pelo nome que tinham e até uma certa conotação sexual, embora, na inocência da época, nunca tenhamos visto dessa forma. Eram brincadeira divertidas, tipo, "esconde-esconde",  "pega-pega",  "duro-mole", enfim, nos divertíamos demais até escurecer.
Mas como eu disse. Os tempos estavam nebulosos e as incertezas dos contágios que proliferavam de forma assustadora, serviram como um bom propósito para muitos viajarem.
Foi o nosso caso.  Fomos então acampar junto às margens de um grande reservatório na cidade de Salesópolis onde meu pai nasceu e hoje está sepultado. Ontem mesmo, teria completado 80 anos.

Ficamos acampados do outro lado da já conhecida pedra para prática de alpinismo chamada "pedra-da-represa"  e daquele ponto onde estávamos, eu adorava apreciar o pôr-do-sol.  O grande astro se recolhia atrás das cadeias montanhosas mas antes deixava seu rastro luminoso alaranjado no céu e na superfície da água.  Até hoje me sinto hipnotizado por esses momentos únicos que literalmente me deixam em estado profundamente contemplativo.

Mas me lembro daqueles dias. Das pequenas marolas que algum barco distante criava e que faziam aquele ricocheteio sonoro na beirada. As garças atravessando o céu laranja enquanto que na barraca logo atrás, minha mãe cozinhava a janta em fogareiro e meu pai acendia o lampião.  No rádio tocava muito uma música que eu gostava e ainda gosto, embora tenha passado muitos anos e quase esqueci.

Ouvia aquela música e apreciava o pôr-do-sol...

Meu irmão ainda muito pequeno, catava coisas na beira da água.  Eram momentos felizes.

Durante o dia, subíamos montanhas, eu gostava de escalar rochas que hoje me deixariam com vertigens.  Também corríamos das criações bovinas abundantes naquele local,  já hoje, só plantações de eucaliptos que desfiguraram a paisagem, mataram a natureza selvagem e secaram todas as fontes onde pescávamos pitú.

Mas o meu momento, com certeza era aquele. O momento mágico do pôr-do-sol refletindo nas águas. Ainda posso sentir o cheiro do mato trazido pela briza. Posso ouvir minha mãe me chamando. E graças ao You Tube posso também lembrar estasiado daqueles momentos tão bons num tempo tão ruim e dramático.

Um tempo em que para muitas crianças que hoje estariam com minha idade foi interrompido

Mas a música...

essa ficou...

Uma canção para aquele lugar.  Para aquele pôr-do-sol...para aquele momento e para minha mãe que se chama Anna.




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